A Oratória

Edgar Valles

Para o cidadão comum, um jurista, e principalmente um advogado, tem de saber falar e discursar em público, de forma a convencer, quando não baralhar, os outros. Só assim sabe do ofício, tal como o clínico  só é médico se curar o doente.

Mas como se aprende a intervir? O Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo define a oratória como a “ arte de discorrer ou falar em público”. Mas não existe faculdade que ministre qualquer formação básica e os próprios estágios profissionais relegam para segundo plano a intervenção oral. Parte-se do princípio que a inspiração vencerá o terror do estagiário e que as palavras brotarão no momento certo.

Não há manuais nem regras que se possam impor. Mas há certamente alguns princípios gerais, que se aplicam a qualquer género de intervenção.

“ Para falar em assembleia não se torna necessário ter o hábito, ou a ciência, dum “ orador” consumado, ou de profissão. Bastam três coisas: pensamento claro, nítido, do que se quer dizer; convicção sincera do que se diz, utilidade em dizer”,  acentuou Roque Laia, no seu livro “ Guia das Assembleias Gerais”.

Pensamento claro e nítido implica  conhecer e dominar o assunto, possuindo uma opinião própria. Muitas intervenções são confusas, não se compreendendo o que  quer transmitir, precisamente pelo facto de o orador não ter arrumado previamente as suas ideias. Quando isso acontece, a intervenção baralha os presentes, em vez de esclarecer.

Convicção sincera do que se diz implica acreditar  no que transmite. Quando estamos a defender uma posição que sabemos errada e sem fundamentos, hesitamos e mostramos a nossa fragilidade.

Utilidade em dizer significa intervir com a intenção de contribuir para o assunto que se discute e aprecia e não falar por falar.

Há algumas “ dicas” ( como se diz na linguagem informática) para as intervenções.

É útil usar uma pequena nota com os tópicos da intervenção, que permite a sequência e a finalização. Há quem comece bem e acabe mal, por se perder; com a pequena nota, a intervenção tem um princípio, meio e fim. António Costa, o actual ministro da Justiça. nunca intervinha sem esse guião.

Também é importante o poder de síntese. Quem ouve, cansa-se facilmente. As intervenções curtas são mais eficazes do que os longos discursos, em que os ouvintes lutam contra o sono. É conhecida a interpelação do juiz Fausto Quadros, num julgamento na Boa Hora, nos anos cinquenta. O réu estava a ser julgado por um homicídio e o advogado de defesa começou as suas alegações orais, dizendo: “ Sr. Dr. Juiz, para se compreender a situação do meu cliente é necessário dissertar sobre a história do crime desde Adão e Eva até aos nossos dias”.  Mas eram 12 horas de uma manhã tórrida. O juiz interrompeu o causídico e, com a sua conhecida tranquilidade, objectou “ Sr. Dr., considerando o  adiantado da hora, o tribunal pede-lhe para começar pelo Novo Testamento”…

É curioso que o mesmo juiz Quadros, já falecido, era conhecido pelas qualidades oratórias nos brindes em casamentos de famílias goesas. Assisti a um discurso de mais de uma hora, em que não se ouvia um sussurro…

Muitos profissionais falam para os clientes e não para as pessoas certas. É frequente em acções cíveis sucederem-se longas intervenções sobre a honorabilidade do cliente, presente na sala, quando o assunto dos autos nada tem a ver com a respeitabilidade da parte. Mas o cliente, satisfeito por palavras tão encantadoras, paga a conta de honorários com mais facilidade, sem pensar  na eficácia da defesa.

Outro ponto importante, quando se trata de assembleias, é não falar de costas para a maioria dos presentes. Encarar os ouvintes de frente dá mais impacto às palavras.

Também não convém falar sentado. Esta prerrogativa raramente é utilizada pelos advogados, que têm consciência do efeito  negativo da posição estática.

Mais do que “ truques”, é importante a transmissão da mensagem.  Por mais brilhante que seja o orador, terá de estudar com seriedade o assunto, de forma a convencer quem o ouve. E tem de partir do princípio que ele não é o único esperto. Os outros não são todos burros. Não pode pensar que vai iludir os outros e que vai suceder o que vemos nos filmes americanos, pródigos em intervenções espectaculares que mudam o rumo dos acontecimentos. Em suma, o orador deve trabalhar para convencer e não para baralhar…

* Edgar Valles é advogado e formador da Ordem dos Advogado

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